“A influência política não me parece que exista apenas no banco público”


Ferro Rodrigues pede “bom senso” para a comissão parlamentar de inquérito sobre a Caixa Geral de Depósitos, cuja criação vai ser discutida esta quinta-feira no Parlamento.

OPresidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, confessou que assistiu às notícias sobre a auditoria feita à Caixa Geral de Depósitos (que indiciava negligência, incompetência e eventualmente corrupção na concessão de créditos) como “qualquer português”: com choque.

“É evidente que fico chocado com esse tipo de informações”, disse, na Grande Entrevista, na RTP, que entre 2007 e 2008 e 2011 e 2012 “houve uma crise financeira brutal” e que “muitos daqueles créditos não tinham ficado malparados se a economia e as finanças a nível global tivessem decorrido de outra maneira”.

No entanto, deixou claro que os bancos têm de estar sempre preparados para períodos de crise.

Para Ferro Rodrigues, é “incompreensível” que o banco público não tenha acatado os conselhos sobre as insuficientes garantias na concessão de créditos em determinados casos.

“Os conselhos são isso mesmo, são para aconselhar, não quer dizer que quem tenha o poder de decisão não possa executar de uma maneira diferente. Mas muitos casos deste tipo, se se apurar, demonstrarão que houve qualquer coisa de podre no funcionamento do sistema financeiro português durante vários anos”, afirmou o presidente da AR, que inclui nesse lote a Caixa Geral de Depósitos, instituição sobre a qual recaía maiores responsabilidades. 

“E o banco público não ficou à margem disso, nem os bancos privados fundamentais que foram eles também vítimas dessas mesmas circunstâncias. A maior parte dos bancos privados teve também o mesmo problema”, considerou, admitindo que no caso da CGD “havia uma responsabilidade pública” e que “teria de haver outro cuidado e outros critérios mais exigentes para a concessão de crédito”.

Questionado sobre a influência política na Caixa, o socialista admitiu que ela existe, tal como também existe na banca privada. “A influência política não me parece que exista apenas no banco público”, disse.

“Uma comissão de inquérito não deve liquidar empresas que possam ser recuperadas”

Ferro Rodrigues disse nesta entrevista que tudo fará para que a comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos arranque na próxima semana, entre quinta e sexta-feira, e acredita que, apesar do tempo ser curto (e com eleições pelo meio), “é possível reunir um conjunto de informação importante”, através da qual será possível “fazer um debate sério”. 

“Agora, se há conclusões que depois sejam tão consensuais ou tão unânimes como foi este pedido de inquérito, não sei, só os grupos parlamentares o poderão dizer”, afirmou. 

Interrogado sobre  o risco de partidarização dessas conclusões, o Presidente da Assembleia da República declarou que “infelizmente, quando isso não acontece é a exceção”. Mas, neste caso, está Ferro Rodrigues está convencido de que “há condições para ir o mais longe possível na apreciação de tudo isto”, tendo em conta que “há mais informação” e que “não há propriamente uma discussão partidarizada”. 

“Esperemos que agora [a comissão] ponha acima de tudo o interesse da verdade e que seja possível daí tirar conclusões que sejam o mais consensual possível. Se as grandes conclusões forem aprovadas com maiorias muito largas será importante para este caso”, declarou Ferro. 

Pronunciando-se sobre as transmissões em direto das comissões de inquérito, Ferro Rodrigues manifestou-se crítico das mesmas, considerando que ‘atrapalham’ na descoberta da verdade. 

“Têm vantagens de transparência mas têm enormes desvantagens do ponto de vista do apuramento real das situações, há muito trabalho para a câmara, muito trabalho para se ter o minuto de antena, e isso é mau”, criticou, acrescentando ainda: “Espero que, nas circunstâncias em que a comissão ache que deve reservar o seu trabalho internamente, que o faça, porque tem, do ponto de vista legal, possibilidade de o fazer”. 

E porquê? 

No entender de Ferro Rodrigues, é imperioso que haja “bom senso” nesta comissão de inquérito, uma vez que, havendo dados relativos a um conjunto largo de empresas que são devedoras e que estão no chamado crédito malparado da CGD,  “é preciso tratar essa informação com algum cuidado”. “Porque há muitas dessas empresas que podem estar em recuperação”, justificou. 

“Uma comissão de inquérito da AR não deve ter como função liquidar empresas que possam ser recuperadas”, defendeu. 

O Parlamento discute esta quinta-feira a criação da terceira comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos, uma intenção do CDS que se estendeu a todos os partidos (à exceção do PCP). Na sexta-feira, os partidos deverão aprovar a comissão de inquérito, que, assim espera Ferro Rodrigues, arrancará na semana seguinte. 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *